terça-feira, 29 de abril de 2008

O Carrossel

Não, a vida não passa. A vida fica. Os gemidos das outras almas, o passo à frente, a ovelha que faltou contar. As borboletas de setembro. Tudo fica, em algum lugar. Sabe aquela aula em que você faltou? As cócegas debaixo do cobertor, os fins de tarde ternos, as más notícias, o fruto que não estava na época. O olhar até o ônibus sumir no fim da rua. Então, tudo isso fica, pode acreditar. As guerras de travesseiro, os beijos roubados pela vida afora. As provas finais. O medo do pai. A saudade de quem esteve mas se foi. As juras de porcelana. Os calos ganhados no caminho. A solidão convidando para uma dança. O momento exato do soco no estômago. O almoço barulhento com a família, a palavra derradeira, a festinha do cachorro. A oração proferida baixinho, o arrependimento dos braços cruzados, a promoção no emprego, a paixão em câmera lenta, o vinho ruim sem bom senso. A mágoa do amor, a encruzilhada repentina, o sorriso do bebê. A caminhada solitária, as mãos delicadas da mãe afagando a tua cabeça. As despedidas dolorosas, as palavras do pai acertando em cheio. A água derramada toda para lavar a alma. A canção preferida tocando no rádio. O medo de dizer uma simples frase. Pois é.

Quem disse que a vida passa? A vida fica, meu anjo. Cada vez mais.
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