quinta-feira, 5 de junho de 2008

Para lembrar

Do vento que vira poesia nos cabelos dela, de barcos de casco branco que somem mudos na imensidão, das avencas sorrindo nos vasos da sacada ou da graça das gotas de chuva desabando na areia. Não há como entender mas lá está - em silêncio, imóvel, in natura - aquele olhar escuro, a respiração serena. Surge do dia vestido bonito de amarelo, de poças frias atropeladas por carros ligeiros, das garças no alto da árvore - em quase tudo existe o traço inicial do sorriso encabulado, a linha primária que desenha o lábio delicado e firme, as fendas adoráveis de expressão ou o contorno de dedos compridos e hábeis que nela se acalmavam. Do seguir vivendo, de memórias que viraram pipa nas mãos, dos destinos certos de ribeirão e mar. Algo espreita, emerge, corre, lateja, aflora. Morre, mas renasce em seguida. E não há superfície em que a alma dela pouse sem que não esteja lá: um indício, uma nota. Para lembrá-la de que alguma coisa ainda está fora do lugar.